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O Papa Francisco e a crise católica. Por que seus oponentes nos EUA estão mudando sua narrativa. Artigo de Massimo Faggioli

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02 Dezembro 2018

Há uma mudança profunda na maneira com que os católicos norte-americanos se opõem ao Papa Francisco. Hoje eles afirmam que "o papado de Francisco é uma continuação de João Paulo II, compartilhando um consenso de que a Igreja deve se proteger contra a dependência muito grande da autoridade, até mesmo da autoridade da Igreja e da família". O que torna esta interpretação mais do que surpreendente é que durante décadas, neoconservadores, incluindo Richard John Neuhaus, fundador da revista First Things, dominaram a direita católica e enalteceram João Paulo II como o Papa que finalmente recuperou o controle de uma Igreja sequelada por teólogos liberais. Agora a narrativa histórica parece ter mudado à luz do pontificado de Francisco. Essa é uma inversão impressionante", afirma Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos, em artigo publicado por Foreign Affairs, 30-11-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o artigo.

Ao diagnosticar a recente divisão dentro da Igreja Católica, R. R. Reno ("The Populist Wave Hits the Catholic Church" [A Onda Populista atinge a Igreja Católica, em tradução livre] publicado em 13 de novembro, pode ser lido em inglês aqui) revela uma profunda mudança na forma como a minoria dos católicos norte-americanos que se opõem ao Papa Francisco o retratam como também os seus antecessores.

Respondendo ao meu recente artigo publicado por Foreign Affairs ("A maior crise da Igreja Católica desde a Reforma", publicado em 11 de outubro), Reno descreve o pontificado de Francisco como “desregulatório”, e em consonância com “um establishment secular governante". Ao mesmo tempo, oferece uma reavaliação um pouco cética do Papa João Paulo II, que foi até recentemente considerado como um herói entre os católicos conservadores, especialmente nos Estados Unidos. Reno não faz distinções conceituais importantes, e faz acusações injustas ao Papa Francisco e seus aliados. No entanto, seu argumento fornece um exemplo valioso de como o movimento conservador tradicionalista dentro do catolicismo dos Estados Unidos se radicalizou.

Reno escreve que a crise atual na Igreja decorre do "abandono" do Papa Francisco ao "antimodernismo" católico. No entanto, ao explicar seu argumento, Reno não distingue claramente entre o modernismo teológico e o catolicismo moderno. O primeiro foi um movimento da última década do século XIX e da primeira década do século XX que procurou reinterpretar o ensino católico tradicional usando o método histórico-crítico, o que levou a conclusões fora da tradição católica e posições que negavam o sobrenatural e sua presença na história. O modernismo foi condenado pelo Papa Pio X em 1907, e o que se seguiu foi uma das mais severas purgas contra teólogos em toda a história da Igreja. Durante décadas, as acusações de "modernismo teológico" estavam entre as mais perigosas que poderiam ser atribuídas contra um padre ou teólogo católico.

"Catolicismo moderno" é algo diferente. Refere-se à percepção da Igreja de que era necessário se engajar com o mundo moderno à luz das mudanças na ciência e na cultura no século XX. O início desta relação trouxe um fim à ficção de que um “retorno” à idade média era possível, muito menos desejável. Após a Segunda Guerra Mundial, o Concílio Vaticano II sinalizou a inevitabilidade do diálogo, e não a rendição, com a modernidade por parte de uma Igreja que quer ser um sinal e instrumento da presença de Deus no mundo. Reno alega que o Concílio, convocado pelo Papa João XXIII em 1959, e que transcorreu entre 1962 e 1965, "sugeriu uma abertura ao mundo moderno", e que essa abordagem "se tornou política dominante" nos anos que seguiram. No entanto, ele não menciona que os teólogos do Vaticano II definiram um limite entre as reformas do Concílio e o modernismo teológico. Yves Congar, o teólogo mais importante do Concílio, escreveu que "o modernismo, ao romper com o quadro do catolicismo, deixou claro o perigo de qualquer reflexão sobre a vida que não se baseia em uma teologia preexistente e bem estabelecida tratando a estrutura da Igreja".

Reno passa a acusar Francisco de abrir mão do projeto antimodernista através de um "afrouxamento geral das normas mais antigas sobre sexo, procriação e família". No entanto, Francisco não faz tal coisa. Sob comando deste Papa, não houve nenhuma mudança substancial em nenhuma destas normas, somente uma ênfase mais forte na maneira que devem ser interpretadas em alguns casos particulares. O adultério continua sendo adultério, e a Igreja Católica ainda não reconhece o divórcio e o segundo casamento. Algo mudou, não na lei da Igreja ou na doutrina, mas na teologia moral e na aplicação pastoral da disciplina sacramental. A mudança é que a Igreja não exclui necessariamente a admissão de casais em segunda união aos sacramentos após um período de discernimento. O foco excessivo de Reno no legalismo nunca esteve alinhado com a tradição católica. As leis sozinhas não unificam a Igreja, somente junto a costumes e práticas cujo propósito é promover o bem-estar espiritual das almas.

Reno também argumenta que Francisco agiu de forma "confusa" quando mudou o Catecismo da Igreja Católica para declarar a pena de morte "inadmissível." Na verdade, a mudança de Francisco era algo bem menos confuso: alinhou finalmente o texto do Catecismo, que dizia anteriormente que a pena de morte era aceitável em circunstâncias "muito raras, se não praticamente inexistente", com várias declarações que os papas João Paulo II e Bento XVI emitiram sobre a pena de morte nas últimas duas décadas.

Mais interessante, no entanto, é a afirmação de Reno de que o papado de Francisco é uma continuação de João Paulo II, compartilhando um consenso de que a Igreja deve se proteger contra a dependência muito grande da autoridade, até mesmo a autoridade da Igreja e da família". O que torna esta interpretação mais do que surpreendente é que durante décadas, neoconservadores, incluindo Richard John Neuhaus, fundador da revista First Things (que Reno edita atualmente), dominaram a direita católica e enalteceram João Paulo II como o Papa que finalmente recuperou o controle de uma Igreja sequelada por teólogos liberais. Agora a narrativa histórica parece ter mudado à luz do pontificado Francisco. Essa é uma inversão impressionante.

Igualmente deslumbrante tem sido como este grupo de católicos mudou sua visão do papel do Papa Francisco na atual crise da globalização. No primeiro ano do pontificado de Francisco, o próprio Reno elogiou o Papa Francisco por seus instintos populistas, escrevendo que ele "intui em grande parte as maneiras pelas quais a globalização está dissolvendo velhas certezas, velhas formas sociais, velhas formas de ser". Agora, entretanto, Reno vê Francisco como um Papa neoliberal, "fundindo a Igreja Católica no establishment cultural e político do Oeste”. Esta é uma virada interessante: onde Reno uma vez elogiou a crítica do Papa ao capitalismo sem restrições, agora sustenta que Francisco em seu núcleo "endossa o ‘mundo aberto’ idealmente integrado para a expansão contínua dos mercados".

Reno está certo quando diz que a crise Católica é mais do que tensões entre esquerda e direita dentro da Igreja. Mas é difícil negar que "os tradicionalistas católicos conservadores com dinheiro e poder político estão fomentando a divisão" e desafiando a legitimidade do Papa Francisco: eles têm sido relativamente transparentes sobre suas intenções. Considere, por exemplo, a tentativa do antigo conselheiro do Breitbart News Steve Bannon a fim de influenciar o pensamento conservador na Igreja com uma agenda anti-Francisco muito clara. De fato, o confronto entre o Papa Francisco e esses setores do catolicismo dos EUA foi percebido muito cedo em seu pontificado.

Que as narrativas sobre o Papa Francisco, e a direção da Igreja Católica de forma mais ampla, tenham se tornado inconsistentes e instáveis é confuso, mas não surpreende. Isso é o que acontece quando o catolicismo se torna totalmente absorvido por uma ideologia política.

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